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A consciência cidadã

A democracia é a forma de governo pela qual todos sempre estivemos dispostos a lutar, em certas ocasiões capazes mesmo de dar a própria vida para que esta se faça valer e perpetue, como fosse dela o advento dos tempos tranqüilos, aqueles quando podemos nos sentir mais seguros nos braços de nossa pátria amada.

Mas será mesmo que fazemos da democracia (o “governo do povo”) um instrumento voltado em benefício da população, ou será que precisamos ainda amadurecer um pouco mais para que tenhamos consciência mais apurada das dimensões de nossa influência e da importância de termos bastante claro que nossos deveres têm que ser priorizados sobre nossos direitos?

O que chamo de “consciência cidadã” é justamente o que vem a se enquadrar nas molduras dessa responsabilidade obrigatoriamente intrínseca às atitudes de atores sociais se o que se deseja é o pleno exercício da democracia em favor do bem comum e utilizada como instrumento de fomento na construção de uma sociedade justa, igualitária, geradora de oportunidades.

É claro que não se pode eximir da responsabilidade o trabalho dos homens públicos que devem, por obrigação e ética, dar prioridade à vontade popular, mas os cidadãos necessariamente têm que participar ativa e assiduamente das tomadas de decisão, o que vem a ser o verdadeiro sentido da democracia.

O discurso pode assemelhar-se à uma enredada tese político-científica, mas a realidade é que os resultados positivos da filosofia democrata surgem às menores e mais simples atitudes cotidianas.

Uma trivial compra em supermercado esconde em si importantes questões sociais sobre as quais pouco refletimos, mas que causam efeitos instantâneos na estrutura social que é de nossa responsabilidade.

Os grandes hipermercados atraem facilmente os consumidores gozando de uma posição confortável ao negociar preços, podendo vender mais barato que os mercados de menor porte a maioria de seus produtos. Mas será mesmo que não acabamos pagando caro pelos produtos baratos?

A invasão dos grandes hipermercados, embora gerem empregos, que são poucos e pagos a baixos salários, prejudica os micro e pequenos empresários, donos de pequenos estabelecimentos, que não conseguem suportar a concorrência e acabam quebrando.

Ao que temos que nos atentar é que a principal força motriz da economia nacional está baseada em micro e pequenas empresas, e portanto temos por dever zelar por elas.

O efeito atinge também as padarias e postos de gasolina, pois, atualmente, pode-se comprar produtos de panificação, embutidos, leite, derivados e ainda abastecer o carro dentro de um mesmo estabelecimento, sem contar ainda com a disposição dos eletro-eletrônicos, peças de automóveis e uma infinda gama de produtos concentrados num mesmo hipermercado, o primeiro responsável do desequilíbrio social.

O segundo responsável? Nós.

Optamos pelos melhores preços vendendo, inconscientemente, todo um rol de oportunidades à nossa própria sociedade, culpa de nosso comodismo e do ilusório efeito do “pagar menos”.

Se fecharmos portas às oportunidades, passamos a nos responsabilizar pelo aumento da violência, pelo desemprego, pelos desequilíbrios sociais, pelos efeitos da democracia mal utilizada.

Cabe-nos o exercício cotidiano da “consciência cidadã” para que possamos caminhar em direção à uma sociedade justa, igualitária e geradora contínua de oportunidades.

*Roberto Morais é Deputado Estadual pelo PPS e 3º Secretaria da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa de São Paulo.

Publicado dia 22/10/2013

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